segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Post 7 - Egocentrismo e morte

Olá,
Egocentrismo é uma doença, mas em primeiro lugar, devemos separar o joio do trigo.
Há pessoas cujas conversas versam basicamente sobre si.
São egocêntricas? Claro.
Mas, numa visão mais abrangente e profunda, o egocentrismo doentio vai muito além desse comportamento social chatinho.
A criança, por exemplo, é bastante egocêntrica e assim deve ser, pois se sentindo o centro das atenções e dos afetos familiares é que ela vai se fortalecendo e aprimorando suas aptidões.
Esse egocentrismo infantil não só é normal como é necessário para o seu fortalecimento psíquico.
Entretanto, com o passar dos anos, aquela criança vai deixando de ser o foco familiar, se tornando mais um membro apenas,  recebendo reprimendas educativas, experimentando o mundo real. Tudo isto se mostra bem diferente daquele seu mundo infantil protegido, amado, elogioso e cheio de fantasias.
É chegada então a hora de promover o gradual  desapego do egocentrismo infantil em direção à consciência da realidade adulta.
E por que é tão difícil?
Freud dizia que "somos filhos das crianças que fomos", e talvez por isso,  nós insistamos tanto em conservar aquele egocentrismo de infância. É muito bom ser amado, mimado, atendido e viver de fantasias. Todo mundo gosta, todo mundo quer. Para sempre, se possível.
O único "porém" é que esse apego, ao invés de nos proporcionar aquela sensação gostosa da infância,  nos causará sucessivas frustrações; qualquer adulto sabe que os resultados de nossas ações e projetos nem sempre são aqueles antes idealizados  e  MUITO MENOS AQUELES  QUE  ACHÁVAMOS SER MERECEDORES, por "pensarmos ser seres especiais".
O egocentrismo nos faz crer que somos especiais, únicos e merecedores só de coisas boas. Não digerimos bem quando a vida nos traz obstáculos. Nos sentimos traídos e infelizes! E reclamamos dia após dia dos problemas que , de fato, não são nada além do que deveriam ser: problemas inerentes à vida humana.
Se está vivo, os terá!
Quem diante de um problema já não esbravejou a frase "Por que eu" ou "Eu não mereço isso" ou "Aonde foi que eu errei" e tantas outras do tipo?
Somos tão egocêntricos que reclamamos, por exemplo, de uma chuvarada no dia  X em que combinamos um programa, aniversário ou casamento, como se o Universo tivesse que se dobrar aos nossos desejos e obrigatoriamente ser um dia ensolarado e iluminado.
Conseguem perceber que por mais que o exemplo dado acima tenha sido bobinho,  esse raciocínio  equivocado em larga escala só nos leva a frustrações e desgostos que poderiam ser evitados?
Vamos por hipóteses.
Eu vejo a vida da seguinte forma: Os equívocos e o egocentrismo afetam todas as áreas de nossas vidas.
De início, vou analisar o impacto de um diagnóstico de um câncer ou de outra doença qualquer igualmente temida como ele.
Todas as pacientes com quem já tive contato, inclusive eu, caíram na armadilha do POR QUE EU ou O QUE FIZ DE ERRADO?
Para estas perguntas, há várias  respostas populares que eu honestamente desprezo integralmente ou relativizo muito hoje em dia.
Há quem diga que a vida ou Deus ou sei lá o que(cada um tem o seu credo) nos dá esse sofrimento para podermos crescer espiritualmente, mostrando o quanto somos "guerreiros" diante da adversidade. Discordo, discordo, discordo!
Ao invés de me enxergar como guerreira, o que só reforçaria a minha condição de especial e superior, quando adoeci, eu me conscientizei foi do contrário.
De como eu era uma pessoa pra lá de "comunzinha" que tinha tido bons e maus momentos, que estava viva e podia morrer, sem que houvesse qualquer explicação, aviso prévio ou mensagem subliminar nisso. Fazia parte da minha condição humana. Cada um tem sua hora, não adianta espernear!
E pior do que temermos deixar as pessoas que amamos, fiquei muito contrariada pela sensação de impotência, de falta de controle, da constatação de resultados tão diferentes do que eu tinha planejado para minha vida. Puro egocentrismo.
Decidi que não ia "lutar" por coisa alguma.
Eu apenas segui, esperando o que ia acontecer lá na frente, como espero até hoje.
Convenci-me da minha condição de espectadora da vida.
Aliás, esse conceito de vitória ou derrota num período de doença é um complicador a mais na vida do doente.
Mais ou menos assim... "Deus me escolheu para lutar essa batalha porque realmente eu sou especial. Todos verão como tenho fé,  e se eu sobreviver é porque ele reconheceu e me concedeu essa benção. Serei uma vitoriosa".
Aham....
Mas, então... E se eu morrer, qual terá sido a mensagem de Deus? A de que eu fui uma perdedora? A de que eu não era uma pessoa de fé?
Ops, isso não faz o menor sentido.
Melhor tirar Deus disso, pelo menos por essa ótica de merecimento e de fé que só serve pra quem sobrevive.
Se ter fé significa crer na vida eterna, morrer e voltar ao Pai é apenas um dos desfechos prováveis. 
Quando se está doente, só há estas duas saídas: sobreviver ou morrer. Mas não é um jogo.
Sem essa de ganhar ou perder a batalha para o inimigo câncer. É muita poesia "demais" para um fato tão natural que é a morte e olhar por este conceito só traz  mais angústia.
Adoecemos porque somos humanos com prazo de validade e,
PONTO FINAL.
O desfecho? Vai saber...Mas, enquanto ele não vem, que tal vivermos a vida da forma mais feliz possível?
Nossos projetos são válidos, mas não temos controle de nada.
Apenas a vida que segue... e a gente faz o possível para  aceita-la e segui-la na paz...
:)

5 comentários:

  1. Letícia de Bragança Ceotto André5 de agosto de 2014 05:43

    Nossa! Amei o texto! Muito bom!!!

    ResponderExcluir
  2. Adorei o texto, Dani! Realmente temos que pensar muito quando estamos diante de uma situação grave pra não cair num desses pensamentos comuns! Embora eu ache, olhando pela minha visão espírita, que temos que passar por algumas situações nessa vida...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim Adri...todos passamos e passaremos...faz parte da existência...Encarar estas experiências como castigos ou dadivas é que é estranho....pois o que é natural não poderia ser surpresa para ninguém... faz parte do jogo! Beijos e que bom que gostou

      Excluir