segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Post 9 - Mãe: Amor Incondicional?


Além do egocentrismo doentio que mencionei no post 7, acredito no real poder destrutivo de alguns conceitos que foram instituídos sabe-se lá por quem e por quê. Fato é que sobreviveram a todas as épocas desde o início dos tempos, e crer neles sem questioná-los produz uma legião de angustiados.
Crescemos ouvindo tais conceitos como um mantra e, assim, vamos formando, ou melhor dizendo, FORMATANDO nossas opiniões. 
E, como, na maioria das vezes, a vida real não se encaixa nestes conceitos genéricos que foram estabelecidos como "regras" ou "normais", começamos a sentir aquela sensação desconfortável de inadequação. Concluímos equivocadamente que o erro só pode estar em nös. Resultado? Angústia!
O primeiro destes equívocos, que julgo o mais importante, é o conceito de que as mães amam incondicionalmente seus filhos....SEMPRE.
A mulher, ao se tornar mãe, é elevada quase à imagem de Nossa Senhora.
Criou-se um estereótipo de que a mulher-mãe tudo perdoa, tudo acolhe, tudo sabe, tudo orienta e nada espera em troca, pois seus filhos são a sua vida! Isso é estimulado em casa, na escola, na religião,  nas mídias.  Sempre aquelas fotos com mães de rostos angelicais e amorosos. 
Realmente amamos nossos filhos imensamente,  mas atribuir a esse sentimento a qualidade de "incondicional" , sinceramente, eu acho  muito exagerado e nocivo.
Então, nós crescemos acreditando nesse conceito, sö que em paralelo vamos percebendo a distorção entre a teoria e a prática já na nossa casa. Converse com alguns filhos e vejam se algum deles relata que a mãe é a cópia fiel de Maria, mãe de Jesus? Nunca! Nossa mãe é de carne e osso, qualidades e defeitos.
A mãe verdadeira e real foge muito à imagem da Santa.

A "crazy mom"  nos repreende, se desequilibra dia sim, outro também...rs,  dá bom dia jä reclamando do cansaço que a maternidade traz, pois dela exige habilidades multitarefas, e cobra diariamente dos filhos inúmeras recompensas pelo sacrifício empenhado. Quer bom comportamento, bom rendimento escolar, afeto, submissão, bom isso, bom aquilo. 

Daí surge o espanto: - "Aonde está aquela mãe descrita em livros, poemas e textos religiosos? Por que a minha mãe é tão diferente? Que azar o meu, logo a minha mãe não nasceu para ser mãe, pois de amor incondicional essa mulher não tem nada. Ao contrario, o que ela conhece bem são condições, condições e condições para isso, para aquilo. Me dei mal." (Essa combinação então do conceito equivocado da maternidade com o nosso  egocentrismo doentio de que só nós sofremos só pode, como se diz,  "dar ruim"..rs).

É chegada então, a temporada dos conflitos entre mães e filhos, e que geralmente se iniciam na adolescência.
Eu costumo brincar que eles(os filhos) entram, certo dia, no banheiro para tomar banho e saem transfigurados...rs...São novas pessoas!

Além deles constatarem que suas mães fogem completamente àquele conceito da mãe ideal, descobrem que ela também não detém a sabedoria  absoluta para responder a todas as suas dúvidas. Assim, concluem que a mãe, além de "amar da forma errada", é  burra e despreparada. Não sabe nada de nada!
Ahhhh... Pára tudo que eu quero descer!
Mãe não é isso!!! Não foi isso que aprendi!! 

Aquela mulher que deveria "tudo saber", vai sendo desmascarada dia após dia sem piedade, pois muitas das  questões trazidas por seus filhos, permanecerão sem respostas ou com respostas pré-concebidas e ultrapassadas. Começa o jogo da queda de braço onde cada um quer impor a sua visão da vida. E, honestamente, os dois lados saem prejudicados, pois essa  despersonificação da "mãe ideal" não atinge sö o filho. Ela chega forte também para causar angústias na própria mãe, que se vê desnudada diante do filho. Ela fica em xeque, sem saber o que fazer. 

*Que mãe não se enche de culpa por não conseguir ser aquela mãe quase santa, um polvo perfeito que de tudo dä conta, que ama incondicionalmente e só tem olhos para seus filhos?
*Que mãe não fica desesperada quando as dúvidas de seus filhos colidem exatamente com aqueles seus fantasminhas de infância que ela tão cuidadosamente empurrou para debaixo do tapete para nunca mais ter que pensar neles?
*Que mãe não acha que está sempre em falta com algo ou se sente um traste por simplesmente pensar em si de vez em quando? Por desejar novos amores, novas aventuras, desfrutar mais do marido, da sua liberdade, realização profissional e até um pouco da simples solidão?

Ficamos um lixinho emocional quando nos priorizamos, pois, afinal, mãe que é mãe mesmooo, segundo os "padrões internacionais", vive para seus filhos, morre para a vida e morre feliz, feliz!
Ahhhh não dá.. Podem até achar que estou sendo ácida, mas não consigo engolir essa maldade em forma de conceito santificado de mãe. Isso é de pirar qualquer mulher e qualquer filho.

Mas, como pra tudo há soluções, eu penso que haja algumas para amenizar essa relação mãe e filho.
*Que tal se, ao invés de criarmos nossos filhos nessa atmosfera fantasiosa de que somos perfeitas e santas, devêssemos  fazer exatamente o contrário, mostrando aos nossos filhos que  eles são e sempre serão a nossa prioridade, mas nunca o nosso único projeto nessa vida? E que uma coisa não exclui a outra, em absoluto.
*Que tal, se, desde cedo, nos desnudarmos "naturalmente" para nossos filhos, enfatizando que, apesar de mães, somos humanas, falíveis e cheias de dúvidas. Pra que esperar o desnudamento compulsório?
*Que tal  explicarmos , humildemente, que estamos AQUI apenas há "mais tempo" do que eles, o que nos confere alguma experiência sobre muitas coisas, mas  não nos concede uma sabedoria infinita.

Reconhecermos que nada sabemos, no melhor estilo socrático - "Só sei que nada sei", e,  junto aos filhos, aprimorarmos nossos conceitos. Não seria esse o objetivo da vida? Evoluirmos e melhorarmos nossas essências?

Assim, em parceria, como duas almas interligadas, mas INDEPENDENTES, que buscam um melhor entendimento da existência humana, poderíamos sepultar de vez este conceito cruel da MÃE IDEAL, e concluirmos que ela não existe. 
Nunca existiu além da teoria!
Aceitaríamos em definitivo que A MÃE REAL é apenas UMA MÃE POSSÍVEL!
Que dá o que tem pra dar. E deixa de dar aquilo que também nunca recebeu.
A mãe que ama e sempre amará seus filhos, mas dentro dos seus limites humanos e de sua sanidade psíquica.
:)














quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Post 8 - Robin e Eduardo

Meu post esta semana seria sobre outro tema, mas as mortes do ator  Robin Willians e do presidenciável Eduardo Campos atropelaram meu cronograma.
Não porque eram figuras públicas e importantes, mas porque suas mortes corroboram as conclusões a que cheguei ao longo da vida, e me estimulam cada vez mais a exercitar um estilo de vida onde a morte não seja uma surpresa imprevisível, mas um acontecimento natural e que deve ser considerado todos os dias quando acordamos. Proposta do meu blog, aliás.
Agora chovem os comentários do tipo "morreu prematuramente", "tinha um futuro promissor", "nossa vida não vale nada", entre tantos outros igualmente equivocados.
As mídias internacionais e nacionais estimulam esse sentimento de espanto e essa visão deturpada de ambas as mortes. Enchem os noticiários de momentos e depoimentos emotivos. Enaltecem os mortos elevando-os à condição de quase heróis e exploram a dor das famílias, incentivando o público a reagir a um acontecimento natural como sendo uma grande tragédia.
Mas, raciocinemos... Tragédia, por assim dizer, é o genocídio de crianças na Palestina. Mísseis não voam sozinhos, não é mesmo?
Essas mortes do ator e do político, suicídio ou não, foram naturais. Não há nada do que se lamentar.
Um decidiu que era a hora de partir e tirou a própria vida.
O outro, por um acidente, foi levado.
Mas, ninguém agiu para que estes eventos acontecessem.
Não há vítimas trágicas nessas histórias.
 
O único ponto que de fato me comove é quando penso nos familiares, em especial, os filhos,  que agora terão que seguir em frente apesar de toda dor e da falta de entendimento.
 
Quanto aos que faleceram, classifico o ator como um vitorioso. Alguém que se suicida aos 63 anos demonstra que já vinha lutando contra a dor da existência há muito tempo, quem sabe desde jovem. Não à toa tinha um histórico de dependência ao álcool e à cocaína. Esses atos não surgem da noite para o dia.
Se ele conseguiu driblar esse desejo até aquela idade e ainda conseguiu ser internacionalmente reconhecido e respeitado por suas interpretações, só nos resta concluir que aguentou  o quanto pode.
E mais.... Que, na hora em que decidiu aplacar de vez o  seu sofrimento crônico, nenhum fator externo foi determinante para impedi-lo.
Sucesso, dinheiro, prestígio, família e filhos não foram capazes de dissuadi-lo da decisão de tirar sua própria vida,  porque o seu maior inimigo estava em seu íntimo, e não há e nem nunca haverá qualquer êxito externo que se sobreponha à nossa paz interior.
 
Quanto ao político, o fato de "ter dado uma entrevista ontem", "ter feito 49 anos no dia dos pais", "ser um cara bem sucedido" e com uma família aparentemente harmônica, tradicional e numerosa não impediu que a morte ceifasse a sua vida, exatamente PORQUE ELA É DEMOCRÁTICA.
As pessoas se chocam porque querem.
Preferem essa reação padrão a raciocinar e concluir que qualquer um que esteja vivo, morrerá!!
Ricos, pobres, famosos, desconhecidos, políticos, cidadãos comuns. Não importa. Tem morte pra todo mundo!
 
E, enquanto retornam ao Pai, nós continuaremos aqui em nossa incerta caminhada, com a lição de que ser feliz não deve ser uma opção, mas sim uma obrigação, POIS A NOSSA HORA TAMBÉM CHEGARÁ!
:)
 
 


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Post 7 - Egocentrismo e morte

Olá,
Egocentrismo é uma doença, mas em primeiro lugar, devemos separar o joio do trigo.
Há pessoas cujas conversas versam basicamente sobre si.
São egocêntricas? Claro.
Mas, numa visão mais abrangente e profunda, o egocentrismo doentio vai muito além desse comportamento social chatinho.
A criança, por exemplo, é bastante egocêntrica e assim deve ser, pois se sentindo o centro das atenções e dos afetos familiares é que ela vai se fortalecendo e aprimorando suas aptidões.
Esse egocentrismo infantil não só é normal como é necessário para o seu fortalecimento psíquico.
Entretanto, com o passar dos anos, aquela criança vai deixando de ser o foco familiar, se tornando mais um membro apenas,  recebendo reprimendas educativas, experimentando o mundo real. Tudo isto se mostra bem diferente daquele seu mundo infantil protegido, amado, elogioso e cheio de fantasias.
É chegada então a hora de promover o gradual  desapego do egocentrismo infantil em direção à consciência da realidade adulta.
E por que é tão difícil?
Freud dizia que "somos filhos das crianças que fomos", e talvez por isso,  nós insistamos tanto em conservar aquele egocentrismo de infância. É muito bom ser amado, mimado, atendido e viver de fantasias. Todo mundo gosta, todo mundo quer. Para sempre, se possível.
O único "porém" é que esse apego, ao invés de nos proporcionar aquela sensação gostosa da infância,  nos causará sucessivas frustrações; qualquer adulto sabe que os resultados de nossas ações e projetos nem sempre são aqueles antes idealizados  e  MUITO MENOS AQUELES  QUE  ACHÁVAMOS SER MERECEDORES, por "pensarmos ser seres especiais".
O egocentrismo nos faz crer que somos especiais, únicos e merecedores só de coisas boas. Não digerimos bem quando a vida nos traz obstáculos. Nos sentimos traídos e infelizes! E reclamamos dia após dia dos problemas que , de fato, não são nada além do que deveriam ser: problemas inerentes à vida humana.
Se está vivo, os terá!
Quem diante de um problema já não esbravejou a frase "Por que eu" ou "Eu não mereço isso" ou "Aonde foi que eu errei" e tantas outras do tipo?
Somos tão egocêntricos que reclamamos, por exemplo, de uma chuvarada no dia  X em que combinamos um programa, aniversário ou casamento, como se o Universo tivesse que se dobrar aos nossos desejos e obrigatoriamente ser um dia ensolarado e iluminado.
Conseguem perceber que por mais que o exemplo dado acima tenha sido bobinho,  esse raciocínio  equivocado em larga escala só nos leva a frustrações e desgostos que poderiam ser evitados?
Vamos por hipóteses.
Eu vejo a vida da seguinte forma: Os equívocos e o egocentrismo afetam todas as áreas de nossas vidas.
De início, vou analisar o impacto de um diagnóstico de um câncer ou de outra doença qualquer igualmente temida como ele.
Todas as pacientes com quem já tive contato, inclusive eu, caíram na armadilha do POR QUE EU ou O QUE FIZ DE ERRADO?
Para estas perguntas, há várias  respostas populares que eu honestamente desprezo integralmente ou relativizo muito hoje em dia.
Há quem diga que a vida ou Deus ou sei lá o que(cada um tem o seu credo) nos dá esse sofrimento para podermos crescer espiritualmente, mostrando o quanto somos "guerreiros" diante da adversidade. Discordo, discordo, discordo!
Ao invés de me enxergar como guerreira, o que só reforçaria a minha condição de especial e superior, quando adoeci, eu me conscientizei foi do contrário.
De como eu era uma pessoa pra lá de "comunzinha" que tinha tido bons e maus momentos, que estava viva e podia morrer, sem que houvesse qualquer explicação, aviso prévio ou mensagem subliminar nisso. Fazia parte da minha condição humana. Cada um tem sua hora, não adianta espernear!
E pior do que temermos deixar as pessoas que amamos, fiquei muito contrariada pela sensação de impotência, de falta de controle, da constatação de resultados tão diferentes do que eu tinha planejado para minha vida. Puro egocentrismo.
Decidi que não ia "lutar" por coisa alguma.
Eu apenas segui, esperando o que ia acontecer lá na frente, como espero até hoje.
Convenci-me da minha condição de espectadora da vida.
Aliás, esse conceito de vitória ou derrota num período de doença é um complicador a mais na vida do doente.
Mais ou menos assim... "Deus me escolheu para lutar essa batalha porque realmente eu sou especial. Todos verão como tenho fé,  e se eu sobreviver é porque ele reconheceu e me concedeu essa benção. Serei uma vitoriosa".
Aham....
Mas, então... E se eu morrer, qual terá sido a mensagem de Deus? A de que eu fui uma perdedora? A de que eu não era uma pessoa de fé?
Ops, isso não faz o menor sentido.
Melhor tirar Deus disso, pelo menos por essa ótica de merecimento e de fé que só serve pra quem sobrevive.
Se ter fé significa crer na vida eterna, morrer e voltar ao Pai é apenas um dos desfechos prováveis. 
Quando se está doente, só há estas duas saídas: sobreviver ou morrer. Mas não é um jogo.
Sem essa de ganhar ou perder a batalha para o inimigo câncer. É muita poesia "demais" para um fato tão natural que é a morte e olhar por este conceito só traz  mais angústia.
Adoecemos porque somos humanos com prazo de validade e,
PONTO FINAL.
O desfecho? Vai saber...Mas, enquanto ele não vem, que tal vivermos a vida da forma mais feliz possível?
Nossos projetos são válidos, mas não temos controle de nada.
Apenas a vida que segue... e a gente faz o possível para  aceita-la e segui-la na paz...
:)